"O meu trabalho é a dança e ela é o meu prazer"

Muito se ouve falar sobre Viver a Dança!
Grande parte das pessoas que trabalha com dança, seja sendo bailarinos ou como professores, coreógrafos, diretores artísticos, críticos... enfim, todas atividades profissionais que envolvem danças vivem e respiram este universo e acabam relacionando outras de suas atitudes ao seu trabalho.
Pensando sobre isso encontrei um texto da Marcela Benvegnu: Coordenadora de Comunicação da São Paulo Companhia de Dança, é jornalista e crítica de dança. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, pós-graduada em Estudos Contemporâneos em Dança pela UFBA e especialista em jazz dance. Participou do livro Na Dança (Imprensa Oficial, 2005) e Terceiro Sinal (SPCD, 2011). Seu mais recente texto publicado é Reflexões sobre Jazz Dance: identidade e (trans)formação (in: Sala Preta, USP, 2011). Ministrou palestra sobre História do Jazz Dance e Corpo Brasileiro, na Broadway Dance Center (Nova York),e aulas como professora convidada de História da Dança na ECA-USP e ITA.  Atua em diversos festivais de dança do país como jurada e crítica, entre eles Festidança, Festival de Dança de Joinville e Festival Internacional de Sapateado. É coautora do documentário Roseli Rodrigues – Poesia em Movimento (2011),  codiretora do Congresso Internacional de Jazz Dance no Brasil e da Revista de Dança, redigido em: 26/10/2012 na Revista da Dança


Por que trabalho tanto?
Por Marcela Benvegnu

Há mais ou menos dois meses, uma pessoa que eu tinha conhecido naquele dia me perguntou por que eu trabalhava tanto e como conseguia fazer tantas coisas ao mesmo tempo. Na hora respondi rindo: "Ah, não sei...". Me arrependi. Não sei se um dia vou poder dizer a ela o motivo real pelo qual trabalho tanto. O importante é que a resposta estava na minha frente, ali no que eu estava fazendo.


Depois desse episódio comecei a fazer uma reflexão sobre o trabalho e cheguei a conclusão de que não consigo dissociar o trabalho do prazer, e quanto mais esse prazer toma conta do meu corpo, mais completa eu me sinto. A dificuldade, em alguns momentos, está no tempo sem tempo, nas mudanças repetitivas, às vezes (des)necessárias, e na dificuldade do encontro, que, não raro, deixa longe quem está, na verdade, perto.



Trabalho em uma grande companhia de dança, cuja forma particular e global de pensar a dança, coloca à minha frente desafios diários. Quando a cortina dos espetáculos se abre, eu me sinto parte daquele lugar. Dirijo ao lado da Flávia, esta Revista de Dança, que propõe diariamente também, novas formas de olhar para esta arte, trazendo à tona vozes invisíveis, histórias plurais e apresentando a realidade da dança brasileira com textos escritos por especialistas.



Aos finais de semana, vejo dança (eu também vou ao cinema, ao teatro), mas o que me dá prazer é mesmo ver o movimento do corpo tomando conta do espaço do palco. Impossível não olhar criticamente para um espetáculo, pontuar o gesto, ver a luz, o figurino, o cenário, a dramaturgia. Ler o release e tentar encontrá-lo traduzido no corpo. Nessas horas, estou trabalhando? Não. Estou sendo eu no encontro da energia que me move diariamente. Quando escrevo um texto é na verdade um respiro. Não é pesado chegar do trabalho e sentar no computador. As palavras saem pelos dedos. É uma forma de falar, o que às vezes fica guardado e eu não tenho a chance de colocar para fora.



O telefone acaba de tocar e são 22h. Fiquei trinta minutos falando sobre trabalho, planos, projetos. E foi ótimo. Outro talvez achasse um tédio. O meu trabalho é a dança e ela é o meu prazer.



Quase sempre a minha cabeça não para. Fico pensando o que fazer, como fazer, por que fazer, como conseguir realizar. Claro que, por vezes, isso também se torna uma angústia, mas o sentimento também faz parte da vida. Ora, se tudo fosse um mar de rosas. Ainda bem que não é. A dança também tem um lado triste, melancólico, sensível, doloroso. E é com a sua multiplicidade que escrevo a minha história e aprendo a me desafiar.



Quando me perguntam o que sou, digo sem pensar: jornalista. Preciso da palavra escrita, dita, grudada. Escolhi escrever sobre dança. Escolhi ser movida por ela. Agora, quando me perguntarem por que trabalho tanto, posso responder: porque me coloco em movimento para poder respirar, porque é o meu prazer e é incrível poder dividir esta arte com o outro.