Sede da antiga Escola Municipal de Bailado vai se transformar no Centro de Referência da Dança Paulistana já em 2014

Passei muitos anos da minha vida neste lugar. Fico feliz com a notícia. A sede da antiga Escola Municipal de Bailado, situada nos baixos do Viaduto do Chá, vai se transformar no Centro de Referência da Dança Paulistana. Juca Ferreira, atual Secretário da Cultura do Município de São Paulo, oficializou nesta quarta-feira, 16 de julho de 2014, a criação do novo espaço, em um encontro com a classe de dança da cidade, realizado nas dependências da antiga escola.


O Centro de Referência da Dança Paulistana começa a se estruturar, como projeto-piloto, já em agosto próximo, a partir de uma proposta elaborada pela Cooperativa Paulista de Dança (CPD), em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura (SMC).

Segundo o coreógrafo Sandro Borelli, presidente da CPD, o projeto que inaugura o Centro de Referência é “simples e potente ao mesmo tempo”. Ele enfatizou que o espaço deverá se pautar pela diversidade, abrigando diferentes linguagens, do clássico ao contemporâneo. “A dança do Brasil estará aqui dentro, num ambiente de convivência artística”, ressaltou, acrescentando que a memória da dança é um dos eixos do projeto, que prevê a criação de uma biblioteca e uma videoteca.

Na plateia, a diversidade de profissionais da área expressou as perspectivas apresentadas por Borelli. Nelson Triunfo, precursor da cultura hip hop em São Paulo, estava presente, assim como Iracity Cardoso, atual diretora artística do Balé da Cidade de São Paulo, Maria Pia Pinocchio, presidente do Sindidança, Esmeralda Penha Gazal, ex-diretora da Escola Municipal de Bailados, Norma Mazella, professora de dança clássica que lecionou por cerca de três décadas na antiga escola, e ainda representantes da dança contemporânea de São Paulo, como os integrantes do grupo Damas em Trânsito e os Bucaneiros. O ator Sérgio Mamberti, ex-presidente da Funarte (Fundação Nacional de Artes), também marcou presença, salientando a quantidade de personalidades que passaram pela antiga escola, como Marilena Ansaldi, que lá se formou em dança clássica na década de 1950.

Como Escola de Dança de São Paulo, nome que ganhou em maio de 2011, a ex-Escola Municipal de Bailado hoje funciona na Praça das Artes, sob direção de Susana Yamauchi, que também compareceu ao evento. Uma planta da antiga escola, recuperada por Susana, foi oferecida por ela a Sandro Borelli, como primeira contribuição para o acervo do Centro de Referência. Além de dépositos, vestiários, salas de massagem, de estocagem de figurinos, de espaços reservados à administração, a planta comprova as dimensões físicas privilegiadas da escola, com suas nove imensas salas de aulas, que agora poderão acolher um ambiente de convivência cultural, como Borelli espera que funcione o Centro de Referência.

“Temos aqui um espaço físico imenso”, apontou Borelli, explicando que as salas de aulas da antiga escola poderão ser usadas para ensaios e oficinas dos grupos da cidade. “Disponibilizaremos equipamentos de som e luz e vamos criar um espaço cênico para espetáculos e experimentações”, ele disse.

O projeto-piloto que será implantado entre agosto e dezembro de 2014, servirá como experiência inicial do Centro de Referência da Dança Paulistana. “Será um primeiro exercício, um primeiro ensaio para, em seguida, implantarmos um grande centro coreográfico para a cidade e o país”, observou Marisabel Lessy de Melo, diretora do Departamento de Fomento da SMC.

Para Juca Ferreira, é preciso “pensar grande” e fazer do Centro de Referência um espaço central de dança na cidade, capaz de promover intercâmbios nacionais e internacionais. O espaço, segundo o Secretário, pode ser beneficiado inclusive pelo recém-aprovado Plano Diretor de São Paulo, que reforçará a revitalização do centro histórico da cidade.

 “Gosto muito de ter todos os segmentos da dança representados no Centro de Referência. Cada modalidade pode dialogar com a outra, sem crivo hierárquico”, afirmou o Secretário.

Juca Ferreira observou que o projeto-piloto que está sendo implantado deverá ser bastante aprimorado. “O Centro poderá estar conectado com escolas, pois precisamos pensar em um grande plano de formação para a cidade de São Paulo”.

O lançamento do Centro de Referência da Dança Paulistana ocorre quase um mês depois da desocupação do prédio da antiga Escola Municipal de Bailado, que no dia 2 de maio foi invadida por um grupo de pessoas de vários segmentos sociais, alguns deles autodenominados de “coletivo de grafiteiros”.

Na época, a Secretaria Municipal de Cultura manifestou-se contra a ocupação, identificada como “ilegítima e ilegal”. “A ocupação configura apropriação de um equipamento público, em plena utilização, por alguns poucos indivíduos que, em hipótese alguma, representam a totalidade dos grupos, coletivos, segmentos e interesses culturais da cidade”, afirmou uma nota oficial da SMC que, junto à Prefeitura, promoveu a desocupação do prédio no último dia 18 de junho.

Tombado pelo patrimônio histórico, o espaço que prepara-se para abrigar o Centro de Referência da Dança Paulistana tornou-se sede da Escola Municipal de Bailado em 1943, três anos após a fundação desta primeira escola pública de dança da cidade. Foi o então prefeito Prestes Maia que fundou a escola em 1940, com o objetivo de formar bailarinos destinados a suprir a demanda de corpos de baile nas óperas então encenadas no Theatro Municipal.

Marco inaugural da dança em São Paulo, a Escola Municipal de Bailado tornou-se uma referência. Ao longo de sete décadas, contribuiu para a evolução e democratização da dança paulistana e formou inúmeros e importantes bailarinos. Além de Marilena Ansaldi, também estudaram na escola personalidades como Iracity Cardoso, Ivonice Satie, Lea Havas. Nomes como Klauss Vianna, Addy Addor e Acácio Vallim, figuram entre os que dirigiram este centro de ensino, situado embaixo de um dos cartões-postais da cidade, o Viaduto do Chá. Com entrada pela praça Ramos de Azevedo, que margeia o Theatro Municipal, a escola é símbolo da cultura e do centro histórico paulistano.

Agora, impulsionada pelos planos da Secretaria Municipal de Cultura e da Cooperativa Paulista de Dança, prepara-se para uma fase de renovação. “A dança pode viver um novo ciclo em São Paulo”, afirma Juca Ferreira, apostando nas novas perspectivas da antiga escola, como Centro de Referência da Dança Paulistana.

Fonte: Conectedance