Entrevista Rachel Ribeiro

Solista do Theatro Municipal

Formada pela Escola Estadual de Danças Maria Olenewa, RJ.
Se aperfeiçoou com Tatiana Leskova e fez curso de especialização com a diretora do Ballet de Camaguey de Cuba, Regina Sánchez.
Premiada em diversos festivais de dança no país.
Ingressa para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, hoje como
II solista participa de todas as temporadas e turnês pela cia, se destacando em várias temporadas incluindo o Papel Principal, Eleita de A Sagração da Primavera de Nijinsky.
Convidada para apresentar-se em eventos grandiosos no país.
É também Professora da SIN Dança e Artes e Assistente de Direção da DAMZ CIA DE DANÇA.

Em algum momento a dança é introduzida nas vidas de bailarinos. Como aconteceu com você?

No Colégio; eu estudava num colégio aonde tinham aulas de ballet e de dança espanhola, minha irmã já frequentava as aulas desde sempre (desde que me entendo por gente, vejo a minha irmã dançando) e mais tarde eu ingressei tbm, as aulas de dança espanhola/ballet flamenco eram ministradas por uma freira da escola e as de ballet clássico por uma ex bailarina do theatro municipal que também era professora da escola de danças Maria Olenewa, aonde posteriormente fui estudar.


Quais as maiores dificuldades bailarinísticas e quais os maiores prazeres?

Infelizmente no Brasil dificuldade é o que não falta, mesmo no TM, a maior cia de dança do país, não temos uma estrutura ideal de trabalho, não temos uma sala de fisioterapia, não temos um espaço ideal e nem aparelhos pra reforço muscular, que evitariam a maioria das lesões que acontecem dentro da cia. Falta que os dirigentes acreditem mais na dança como profissão e invistam muito mais; apoio, patrocínio também são coisas difíceis de conseguir, como não podemos estampar no peito em cena logomarcas, precisamos que investidores realmente acreditem na dança como parte de cultura essencial ao povo.
O maior prazer sem dúvida é a cena, o espetáculo, o abrir da cortina, é se transportar pra uma época, uma história, viver um personagem, é sentir como a arte invade nosso peito e sem dizer nenhuma palavra transmitir muito ao público.


Explique para nós como é ser II solista de uma companhia?

Ser 2ª solista é estar num papel de grande responsabilidade dentro da cia. Ser uma demi solista e ao mesmo tempo o alicerce do corpo de baile.
O Corpo de baile é o que move a cia e os grandes espetáculos; ser 2ª solista é isso...
Ter a responsabilidade de comandar o corpo de baile, de estar à frente, literalmente puxar as filas e no dia seguinte tbm fazer seus solos e demi solos.
É trabalhar muito, mas é tudo que amo fazer...adoro fazer meus solos, os quartetos e tudo mais e tbm amo estar à frente do cb, tem ballets q se vc não faz cb é como se vc não fizesse parte.
Tem como se sentir em La Bayadere e não estar no reino das sombras, dançar Lago dos Cisnes e não sentir o peso da tradição do 2º ato? Como sentir o drama de Giselle se não for sendo uma Willi?!?!
Eu pego pra mim essa responsabilidade e gosto muito disso, Fernando Alonso disse uma vez que as pessoas mais importantes dentro de uma cia de dança são as "coriféias", aqui denominado como 2ª solista, carregamos a tradição, a responsabilidade de passar e manter o estilo da cia...somos realmente líderes!

Qual seu repertório preferido e qual papel você mais gostou de fazer?

Sem dúvidas meu repertório clássico preferido é "La Bayadere", sempre fui encantada por esse ballet.
Pela intensidade coreográfica, pelo ato branco, as músicas, figurinos, por tudo...e a primeira vez que dancei no theatro esse ballet, foi uma produção linda da grande Natalia Makarova, foi mais que um sonho, inesquecível trabalhar com ela e sua equipe.
Mas com toda certeza o meu papel e momento preferido foi a "Eleita" de "A Sagração da Primavera" de Nijinsky, não tinha como não ser;
Um papel histórico, dançado por estrelas mundiais, uma responsabilidade imensa estar à frente da minha cia que tanto amo e admiro, um dia indescritível!
A música entra nos ouvidos e se instala no coração, a cena cresce e no momento seguinte produz energia que irradia e conduz vc a gastar tudo, a se entregar, a se transportar! Uma força que move vc a permitir que o público viva a sua experiência! Sensação única...um presente!!!

Levando em consideração o cenário bailarinístico em nosso país, qual você acha que é a importância de companhias como a do TMRJ e dos vários festivais competitivos?

O Theatro Municipal do RJ, é um templo da arte, não tem como entrar e não se apaixonar. A Cia de Ballet é a maior do país, e a única com tradição na dança clássica. Somos um theatro lírico, temos a cia de ballet, a orquestra e o coro do theatro. Somos a tradição dentro do país. Então, temos capacidade pra fazer grandes produções assim como as grandes cias mundiais. Somos um espelho.
Certamente o País comportaria mais cias como a do theatro, somos um celeiro de talentos e muitos não encontram campo de trabalho aqui.
Por isso hoje em dia os grandes festivais se fazem necessário, com poucas cias de dança, poucos theatros disponíveis e pouco investimento para espetáculos, os concursos viraram um meio de manter a dança viva. É a forma encontrada pra se estar sempre em cena, a maneira de um trabalho ou um bailarino ganhar visibilidade, e em alguns casos, alguns concursos, abrem porta para o futuro profissional. Bolsas de estudos e até mesmo contratos pra fora do país.


Qual seu maior sonho bailarinístico?


No momento estamos atravessando uma crise muito grande no país, e mesmo com nossos salários atrasados, respeitamos nosso público e nossa arte. Hoje meu grande sonho seria ver nossa casa, nossa arte e nossa tradição Respeitada.
Não podemos virar "barganha" política, nem tão pouco podemos ser deixados de lado. Temos uma história com a Arte, uma vida de sacrifícios e dedicação pra manter viva a cultura do nosso país!

O que cada professor deixou em você?


Meus professores deixaram em mim a Paixão, eu acredito que um bailarino se faz com uma porcentagem de talento, uma porcentagem de trabalho, uma de confiança nos seus mestres e a maior parte de paixão.
Se vc tem toda a condição física pra dança mas seu olho não brilha em cena, não tem como garantir que vc vai fazer carreira, que será um verdadeiro profissional. Mas se tem paixão, vc tem perseverança e isso vai levar vc longe.
Arte não se ensina, está dentro de nós!
Felizmente tive professores apaixonados pela dança. E pela dança num todo, todos foram bailarinos e viveram tudo na pele, o dia a dia, as glórias e as dificuldades. Me ensinaram respeitar a tradição, a hierarquia, me deram disciplina, me transformaram na profissional que sou hoje. Sou muito grata e guardo todos no coração.


Para você dançar é:
É minha vida, minha profissão, minha paixão.
Sou apaixonada pela minha profissão, e isso é vida!
Dançar é como "servir"...
Servir minha arte ao público, a minha cia, ao meu theatro.

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